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Será que meu filho não me ama?

Quero falar com vocês sobre uma situação angustiante para muitos pais e mães: Quando a criança demonstra preferência por um dos dois. Isso pode gerar muitas dúvidas, insegurança (estou fazendo algo errado?) e até ciúme. Pesquisei estudos e opiniões de vários profissionais para dar a vocês algumas dicas.

Esse é um assunto contraditório, existem diferentes teorias a respeito. Como nos outros posts, minha dica é seguir aquilo em que você confiar mais, aquilo que encaixar melhor com seu coração e com sua família. Uma das teorias vai dizer que a menina passa por diferentes fases, e o menino também. A menina vai passar por uma fase em que se identifica com a mãe, depois compete com ela pelo amor do pai e depois de frustra-se, toma uma posição mais autônoma, por entender que o papai não pode ser só dela. O menino começaria igual, identificando-se com a mãe, depois o pai seria o responsável por ir mostrando aos poucos que a mamãe não é só dele. Isso naturalmente. São processos inconscientes até, para todos os envolvidos. Ninguém precisa ir ao psicólogo para passar por essas etapas, tudo deve ser o mais natural possível, são fases normais do desenvolvimento da sexualidade da criança. Existe, sim, uma diquinha que é ir frustrando aos pouquinhos a criança, com delicadeza ir mostrando que a mamãe e o papai precisam namorar, ficar um tempinho sozinhos, mas principalmente depois do primeiro do bebê.

Há famílias que não passam ou nem percebem esse padrão que eu mencionei. Há famílias que percebem uma dinâmica diferente. E talvez nesses casos, a teoria mais adequada é a de que essas preferências sejam quase aleatórias. Ou ligadas a outros fatores, que não os da sexualidade. Por exemplo, uma mãe que é responsável por deixar a criança na escolinha pode ser menos querida do que o pai, que é o responsável por apanhar a criança no final do dia. Essa criança pode estar associando “deixar na escolinha” como algo ruim, e “buscar” como algo bom, e passar a demonstrar mais carinho pelo pai. Mas o mais comum é que essa preferência não esteja relacionada ao carinho dispensado à criança. Muitas mães podem dar uma quantidade maior de carinho e quem recebe mais pode ser o pai. Ou o oposto. Existe, na verdade, um mito de que a criança sempre será mais apegada à mãe, e descobrir que seu caso não é esse pode ser frustrante.

A notícia boa é que a preferência se dá por fases. Hoje pode ser o papai, daqui a algum tempo, a mamãe. O importante é ficar atento aos relacionamentos da criança, observar se há razões para a preferência e tentar se melhorar, caso se perceba que a criança está tomando aversão por alguma razão ruim. Por exemplo, se não se está sendo amedrontador, ou se ficou a cargo só de um a responsabilidade de educar (o ideal é dividir a tarefa de corrigir a criança, para não causar a ideia de que um é bonzinho e o outro é mau). Se não forem esses os casos, está tudo dentro do esperado e lembrem-se sempre: pai e mãe erram e o legal é tentar melhorar, tentar reparar os erros, sem se matar de culpa! Tem mãe que não consegue corrigir muito, tem mãe que não consegue ser tão carinhosa quanto o pai. Tem pai que morre de vontade de ser tão respeitado quanto a mãe, e assim vai!

Não tem família perfeitinha “de acordo com o manual de instruções”. Seu filho te ama, sim, mas do jeitinho ainda imaturo dele. Tem um vídeo no youtube (I don’t like you mommy) em que um menininho de uns 3 aninhos diz pra mãe: “Eu te amo, mas não gosto de você o tempo todo, só quando você me dá cookies. Não é engraçadinho? Imagina só se o pai desse menino sempre der a ele os tão adorados cookies! Vai ser o “preferido” provavelmente. Mas não quer dizer que ele não ame a mãe! Busque sempre o seu melhor, lembre-se do estilo de educação autoritativo (com cobrança de melhora e elogios – se quiser, leia o post que escrevi sobre “o melhor estilo de se educar”) e vá em frente! Sempre atento ou atento a sinais de sofrimento da criança, mas se ela parecer que está afetivamente bem, o jeito é curtir a fase em que o outro é o preferido, afinal, finalmente você tem um tempo pra respirar um pouco! Um grande abraço a todos!

Esse post foi inspirado na pergunta de uma leitora. Deixe suas dúvidas e comentários, adoramos escrever sobre o que vocês gostariam de ler!

 

Carolina Moreira é neuropsicóloga e mestre em Psicologia. É psicóloga clínica na Universidade Federal de Uberlândia. Tem treinamento em ansiedade, depressão e terapia cognitivo-comportamental pelo Beck Institute e pelo Oxford Cognitive Therapy Centre. CRP 04/27390