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Os perigos das palmadinhas

(Baseado no texto de Lígia N.D.Weber: Tapinhas machucam sim)

Essa é uma história contada pela escritora americana Astrid Lindgren:

Uma mãe que era bem contra bater nos filhos um dia não aguentou porque daquela vez a desobediência passara dos limites. Como era uma mãe controlada, ela sabia o que está fazendo. Não gritou, manteve a consciência e pediu que o filho que desobedecera fosse até o quintal e trouxesse um galhinho para que ela lhe aplicasse a punição.

Você vê violência nessa história? Para a mãe, ela não estava sendo violenta, mas veja o fim da história e perceba como a criança viveu isso.

Um tempinho depois, a criança voltou chorando e disse: “Mãezinha, eu não consegui achar uma varinha, mas achei uma pedra que você pode jogar em mim”.

Para a criança, tanto fazia a mãe bater com galhinho, chinelo, mão, pedra.

Imediatamente a mãe se deu conta disso, abraçou o filho, chorou com ele e deixou a pedra na cozinha, como símbolo do que aprendeu naquele dia.

É de fazer pensar, não é? Segundo um estudo brasileiro, 88% das crianças e adolescentes já apanharam. O surpreendente é que 66% concordam que se deve bater nos filhos quando esses fazem coisas erradas. É assim que essa cultura de bater passa de geração em geração.

Em outro estudo, 52% dos pais que haviam sido denunciados por espancar os filhos contaram que estavam tentando educá-los. Aí está outro perigo: o limite entre educar e violentar é muito pequeno e os pais muitas vezes perdem essa noção.

Acontece que as palmadas são dadas também para aliviar quem bate, e a pessoa pode usar isso para descarregar a raiva e descontar suas frustrações presentes e até passadas (pais que apanharam na infância).

A punição física, assim como qualquer outra, tem ainda outro problema, ela não mostra o que a criança deve fazer, apenas o que ela não deve. É muito importante mostrar à criança um comportamento adequado no lugar daquele comportamento ruim.  Além disso, é sempre importante punir o comportamento da criança e não a criança em si. Não devemos dizer a ela que não A amaremos se ela fizer tal coisa, que ELA está feia ou que a mamãe não gosta DELA assim. Diga a ela que o que ela FEZ foi ruim, mostre as consequências do ATO dela. Nunca coloque o amor à criança em jogo. Ela precisa saber que você a ama e que ela tem valor na família mesmo assim, mas que ela pode melhorar o comportamento (mostre como).

As palmadinhas leves não são crime, mas também podem ser substituídas por práticas muito melhores. O espancamento, por outro lado, é diferente das palmadas, é muito grave, gera sofrimento e lesão corporal. Constitui um crime que precisa ser denunciado. Se você sabe que uma criança é espancada, disque 100 e denuncie.

 

Carolina Moreira é neuropsicóloga e mestre em Psicologia. É psicóloga clínica na Universidade Federal de Uberlândia. Tem treinamento em ansiedade, depressão e terapia cognitivo-comportamental pelo Beck Institute e pelo Oxford Cognitive Therapy Centre. CRP 04/27390