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Luto na infância

Estamos no mês das crianças e tudo que vem do assunto CRIANÇA é sempre muito alegre e divertido. A infância muitas vezes é associada a brincadeiras e a um tempo de felicidade. Algumas crianças, entretanto, vivem situações extremamente difíceis, entre elas, o falecimento de uma pessoa querida. Elas vivem essas situações de forma diferente dos adultos. Muitas nem chega a vivenciar um luto por não poderem minimamente compreender o que significa o falecimento de alguém. Outras sentem algum tipo de incômodo, insegurança e até tristeza, abandono. O comportamento delas pode mudar em razão disso, tornando-se mais medrosas por um tempo, nervosas, desorganizadas, etc. Já as mais velhas poderão até exprimir alguma forma de significação ou elaboração.

E quando acontece? O princípio norteador é a honestidade. Mentir, dizer que a pessoa que faleceu dormiu, viajou, descansou, etc., pode confundir a criança e deixá-la insegura. Outro cuidado é evitar as afirmações como – morreu porque estava doente ou idoso. Isso pode fazer a criança concluir que todos os doentes ou idosos irão morrer por isso. A cognição da criança pode ser literal em fases iniciais do desenvolvimento, por isso é melhor escolher as palavras e deixar claro que nem todos os que estão doentes e idosos estão morrendo.

Crianças muito pequenas pedem explicações concretas e curtas. “O vovô ficou muito doente e depois o corpo dele parou de funcionar” é uma explicação possível. Para algumas, dependendo de cada família, explicações religiosas podem ajudar a dar sentido, desde que feita de forma mais concreta no caso dos menores.

Aqui em casa o que nos ajudou foi que um coleguinha do meu filho foi quem deu a notícia do falecimento do vovô paterno. Por uma incrível coincidência, enquanto eu e meu marido estávamos no velório, o coleguinha encontrou meu filho num restaurante e naturalmente falou: -Seu vovô foi morar no céu junto com o meu vovô. Meu filho demorou a processar e depois foi “caindo a ficha”. Todos nós sofremos muito e recorremos a ajuda psicológica breve. Foi ótimo ter feito isso. E o que mais acalmou o coração de todos nós foi mesmo explicar que ele está com Papai do Céu e está vivo lá, e que vamos encontrar com ele um dia.

Como seguir em frente? Uma dica fundamental é manter a rotina da criança na fase do luto. Manter horários e costumes é importante para evitar mais insegurança. O luto é uma fase difícil para todos, e isso pode causar uma situação de negligência para com os pequenos. Cuidar da segurança emocional e até física deles pode ser especialmente difícil, por isso, peça ajuda, se necessário. Gradativamente, ao longo dos meses a família toda deverá sentir-se melhor e, caso o sofrimento grave persista, é necessário que a criança ou mesmo o adulto em sofrimento seja avaliado por um psicólogo e receba tratamento adequado para conseguir elaborar a situação.

Temos que entender que tudo para uma criança parece ser maior que o real. Se deixarmos que o luto seja um peso muito grande para elas, talvez a criança não possa suportar e logo mais, irá aparecer os reflexos dessa perda. Portanto, nessa fase tão difícil, cuide da sua criança. Isso tudo é válido também quando a criança perde o seu animalzinho de estimação. Vale a pena ficar atenta ao comportamento, que pode sofrer alterações tempos depois do acontecido.

 

Carolina Moreira é neuropsicóloga e mestre em Psicologia. É psicóloga clínica na Universidade Federal de Uberlândia. Tem treinamento em ansiedade, depressão e terapia cognitivo-comportamental pelo Beck Institute e pelo Oxford Cognitive Therapy Centre. CRP 04/27390